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Editora: 12min
Um data center é um galpão cheio de computadores, e os que processam inteligência artificial consomem eletricidade em escala de cidade. Essa energia não sai de um sistema separado: vem da mesma rede que abastece casas, comércios e hospitais. É por isso que a corrida das empresas de tecnologia por eletricidade deixou de ser assunto de engenharia e virou tema de conta de luz, de regulador e de política local nos Estados Unidos.
Nesse cenário entrou o acordo que o Google e a Constellation Energy anunciaram na terça-feira, e que tem uma característica que o distingue dos anúncios nucleares a que o noticiário acostumou o leitor: nenhuma usina nova será construída.
Construir um reator novo nos Estados Unidos pode levar uma década ou mais, e as próximas gerações da tecnologia ainda devem demorar anos para serem usadas em larga escala. Como a demanda das empresas de tecnologia é para já, os acordos recentes se concentraram em instalações que já existem, já estão ligadas à rede e podem produzir mais por meio de melhorias operacionais. Essa estratégia é conhecida no setor pelo termo em inglês uprate, o aumento de capacidade de um reator existente.
Na prática, significa trocar e modernizar equipamento: turbinas, geradores de vapor, sistemas digitais de controle. O ganho de eficiência térmica e elétrica destrava geração adicional sem obra de usina nova. "A geração já existente e os aumentos de capacidade são as formas mais baratas, limpas e confiáveis de adicionar oferta de energia ao mercado", escreveram os analistas Sunaina Ocalan e Raphael Lee, do banco de investimento Bernstein, em relatório divulgado no dia do anúncio.
É esse o mecanismo que está no centro do acordo.
São dois contratos. O primeiro é um acordo de compra de energia de 20 anos que viabiliza a modernização de 11 reatores em seis usinas da Constellation, em Illinois, Pensilvânia e Nova Jersey. O resultado esperado é de 890 megawatts de capacidade nuclear adicional, algo que, segundo as próprias empresas, equivale ao que um grande reator novo ou três reatores modulares pequenos gerariam. A operação representa mais de 4,3 bilhões de dólares em novos investimentos da Constellation, e a primeira entrega de energia está prevista para 2028.
O segundo é um contrato de fornecimento de 15 anos para outros 2.700 megawatts do portfólio da empresa, sem vínculo com uma fonte específica. Essa parte serve para garantir receita de longo prazo às usinas que a Constellation já opera, de qualquer combustível. Somados, os dois contratos chegam a cerca de 3.590 megawatts, e o pedaço nuclear novo corresponde a aproximadamente um quarto disso.
As empresas anunciaram ainda uma aliança tecnológica de cinco anos em que a Constellation adota o Google Cloud e o Gemini Enterprise para escolher locais, modelar fluxos de energia, acelerar licenciamento, monitorar equipamentos e gerir paradas. O acordo deve sustentar cerca de 4.400 empregos existentes e abrir aproximadamente 7.200 vagas durante as obras.
O pacote é o mais recente de uma sequência. A Microsoft assinou em 2024 um contrato para comprar energia da usina de Three Mile Island, na Pensilvânia, que está desativada e que a Constellation pretende religar no ano que vem. O próprio Google já havia contratado energia da NextEra para viabilizar a reativação do reator Duane Arnold, em Iowa, desligado desde 2020, e no mês passado garantiu capacidade adicional investindo em melhorias em duas usinas da Southern Co.
Com a Constellation, a fila é ainda mais visível. Em junho, o Walmart fechou contrato que inclui energia vinda de melhorias numa usina de Illinois. Pouco antes do acordo do Google, a Amazon firmou um contrato de 20 anos para adquirir 690 megawatts, incluindo capacidade adicional gerada pela expansão da usina de Calvert Cliffs, em Maryland.
O limite dessa estratégia já foi reconhecido pela própria empresa. Com essa sequência de contratos, a Constellation passa a ter poucas instalações adicionais capazes de sustentar acordos semelhantes, afirmou o porta-voz da companhia, Paul Adams. A operadora é a maior do setor nuclear nos Estados Unidos: a energia atômica respondeu por 70% da sua capacidade de geração no ano passado, com 8% de renováveis e 22% de gás e petróleo.
Todas as usinas envolvidas estão dentro da PJM Interconnection, a maior rede elétrica do país, que atende cerca de 67 milhões de pessoas em 13 estados e no Distrito de Columbia e abrange o condado de Loudoun, na Virgínia, o maior polo de data centers dos Estados Unidos.
Essa rede vem tendo dificuldade para acompanhar a demanda. Um monitor independente de mercado apresentou no ano passado uma reclamação à FERC, a agência federal que regula energia, afirmando que a PJM planejava permitir a conexão de data centers enormes que não conseguiria atender de forma confiável, o que poderia levar a apagões. Em janeiro, a administração Trump e governadores de todos os estados onde a PJM opera pediram, em declaração conjunta, um leilão "emergencial" de energia. A PJM adiou recentemente esse leilão, após orientação da FERC para revisar a proposta e reforçar proteções que impeçam data centers de encarecer a conta de outros consumidores. Nos estados ligados à rede, as tarifas subiram muito: em Nova Jersey, 54% em cinco anos.
A administração da PJM chegou a propor exigir que clientes de data center tragam sua própria energia ou aceitem ser desligados remotamente em momentos de pico. Segundo Google e Constellation, o acordo foi fechado justamente em resposta a essa proposta.
A reação do mercado foi imediata: as ações da Constellation chegaram a subir 15% em Nova York, na maior alta intradiária desde abril, enquanto os papéis da Alphabet, controladora do Google, recuavam até 0,5%.
No mesmo dia, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, anunciou que quer acabar com incentivos fiscais para grandes data centers e cobrar deles uma tarifa premium de eletricidade, com contribuição maior para a rede, o que poderia aliviar o custo dos demais consumidores. O estado aplica uma moratória temporária a novos projetos de data center de grande porte enquanto desenvolve padrões ambientais de energia e água. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez defendeu que contas de luz e abastecimento de água sejam protegidos e propôs uma moratória federal. A Casa Branca respondeu, por meio da assistente de imprensa Liz Huston, que a exigência de que data centers paguem pela própria energia, água e serviços garante que a população não arque com a conta.
Vale registrar o que o acordo não resolve: o gás é a maior fatia do mix de combustíveis da PJM, e os data centers vêm impulsionando novos projetos de infraestrutura a gás nos Estados Unidos. As emissões de carbono do Google cresceram 18% no ano passado, acompanhando um salto de 37% na demanda de eletricidade da empresa.
Três coisas valem acompanhamento nos próximos meses. A primeira é o esgotamento do estoque: como a própria Constellation diz ter poucas instalações restantes para acordos desse tipo, observe para onde vão os próximos contratos das grandes empresas de tecnologia, se para as últimas usinas modernizáveis de outras operadoras ou para construção nova, que leva muito mais tempo. Cada anúncio futuro deve ser lido com uma pergunta simples: é capacidade que passa a existir ou é energia já existente mudando de dono contratual.
A segunda é a proposta de "traga sua própria energia" da PJM. Se ela avançar e for adotada por outras redes, deixa de ser detalhe regulatório e vira a regra que define quem pode instalar um data center e sob que condição. O desfecho do leilão adiado, que a FERC mandou revisar para evitar repasse de custo a outros consumidores, é o melhor termômetro disso.
A terceira é a divisão da conta. Nova York discute acabar com incentivo fiscal e cobrar tarifa diferenciada de data centers; outros estados tendem a olhar para o que acontecer lá. Para quem mora em qualquer lugar, incluindo fora dos Estados Unidos, a questão de fundo é a mesma e tende a chegar: quando um grande consumidor se conecta à rede local, quem paga pela ampliação dessa rede.
Quando um data center for anunciado perto de onde você vive, qual pergunta você vai querer ver respondida antes de a obra começar?
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